Chás medicinais podem interagir com remédios e até provocar abortos
A sabedoria popular ensina que existe um chazinho para quase tudo. Apesar de serem usados há milênios, é preciso alguns cuidados na hora de consumi-los. Muitos deles têm efeitos colaterais e podem interagir com certos medicamentos, além de serem contraindicados para gestantes.
No Brasil, o chá é regulamentado como alimento, e não como medicamento, portanto o produto não passa por testes clínicos. Para orientar a população, porém, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) publicou em março deste ano uma regulamentação para o uso de algumas plantas medicinais. Os chás que tiveram suas propriedades terapêuticas reconhecidas pela Anvisa são bem conhecidos dos brasileiros, como o de carqueja e de alcachofra, usados para aliviar distúrbios digestivos.
A agência alerta que, para os produtos terem o efeito desejado, é preciso seguir as instruções de preparo que devem estar impressas na embalagem. As contra-indicações também devem estar impressas nas embalagens - o chá de carqueja, por exemplo, não deve ser consumido por gestantes, pois pode promover contrações uterinas e até aborto. O problema é que muitas vezes essas plantas são adquiridas a granel, ou mesmo em hortas caseiras.
É preciso ressaltar que o consumo moderado de chás não causa nenhum risco para a saúde - esses efeitos adversos só aparecem quando o chá é ingerido em excesso. “A diferença entre o medicamento e o veneno é a dose", alerta Ana Lúcia Tasca Gois Ruiz, pesquisadora da Divisão de Farmacologia e Toxicologia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Basta lembrar que um potente veneno, a estricnina, é utilizado como remédio homeopático.
Outro problema é que muitos chás são propagandeados com propriedades terapêuticas que não possuem. É preciso ter muito cuidado com situações como “a-avó-da-vizinha-da-tia” recomenda, e com chás vendidos como “milagrosos”. Antes é preciso investigar se o chá recomendado é o ideal para o que se precisa, e se sua propriedade terapêutica é comprovada.
Universidades como a Federal do Mato Grosso (UFMS) e a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) são conhecidas por seus estudos sobre plantas medicinais, e já comprovaram as propriedades terapêuticas de vários chás, podendo ser uma boa fonte de consulta.
Mas vale a pena procurar orientação profissional. “Quando se utiliza o chá com finalidades terapêuticas, o ideal é procurar a orientação de um profissional de saúde - farmacêutico, médico, nutricionista. Ele vai orientar quanto ao chá indicado, o modo de preparo e a quantidade diária recomendada com segurança”, aponta André Gonzaga dos Santos, professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unesp (Universidade Estadual Paulista).
No livro “50 Chás Medicinais da Flora do Maranhão”, cuja quinta edição vai ser lançada dia 24, a coordenadora do Programa de Fitoterapia da UFMA, Terezinha Rêgo, aborda as plantas medicinais comumente utilizadas no preparo de chás.
Entre as 50 receitas relacionadas na obra, a farmacêutica aponta os dois chás mais utilizados: de Picão e de Quebra-pedra. A Bideus graveolens, conhecida popularmente como Picão, produz chá importante para o tratamento de hepatite e prevenção do escorbuto. O medicamento é feito com 1g dos capítulos florais em um litro de água fervente, que posteriormente deve ser coado. E, conforme diz a professora, recomenda-se a ingestão do chá 2 vezes ao dia.
Já o chá da Comphrena demissa, chamada de Quebra-pedra, atua nos rins, aumentando a taxa de excreção pela urina, e também é utilizado na dissolução de cálculos renais. Para produzir a solução, coloca-se 5g das folhas em um litro de água fervente. Depois de coado, deve-se beber três xícaras por dia.
É necessário que os chás sejam utilizados de forma correta, pois, caso contrário, podem causar prejuízos à saúde, que variam de acordo com o organismo da pessoa. Os principais exemplos de uso indevido são referentes ao excesso de ingestão e ao uso de chás em situações que exigem cirurgia imediata.
Terezinha de Jesus Almeida Silva Rêgo
Atualmente, coordena o pólo de Biodiversidade do Estado do Maranhão, em parceria com UFMA, Fapema e SEBRAE, e o de Programa de Fitoterapia da UFMA. Tem experiência na área de Botânica, com ênfase em Morfologia Vegetal, atuando principalmente nos seguintes temas: fitoterapia, hortas medicinais, medicina popular pré-amazônia, etnobotânica espécies medicinais, farmacognóstica mangifera, fitogeografia e plantas medicinais.
Terapias Naturais e Saúde
O que os chás podem fazer por você
Ninguém duvida das virtudes medicinais dos chás, um conhecimento milenar. Nos anos 50, porém, por conta da evolução da indústria farmacêutica, o uso das plantas medicinais diminuiu muito, substituídas que foram pelos medicamentos sintéticos. Já na década de 80, o interesse pelos fitoterápicos voltou a crescer e, hoje, há investimentos para a pesquisa nesta área. Afinal, é inegável que as ervas podem curar de forma mais barata e muito eficaz.
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